PUC - RIO 2016 PROVA DISCURSIVA
HISTÓRIA
Questão 1

DEBRET, Jean-Baptiste - Diferentes nações negras. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Volume 2, Prancha 36.
“Torna-se claro que quem descobriu a África no Brasil, muito antes dos europeus, foram os próprios ‘africanos’ (...) trazidos
como escravos. E esta descoberta não se restringia apenas ao reino linguístico, estendia-se também a outras áreas
culturais, inclusive à da religião. (...) Há razões para pensar que representantes desses povos, quando misturados e transportados
ao Brasil, não demoraram em perceber a existência entre si de elos culturais mais profundos.”
SLENES, Robert. “Malungo, ngoma vem!”: África coberta e descoberta no Brasil. Revista USP. no
12, dez 1991 / jan-fev 1992, p. 49.
Tomando como base a imagem e o texto acima:
a) Explique a ideia de que a África foi “descoberta” no Brasil pelas nações negras trazidas para cá como escravas.
b) Cite duas formas de reconstrução dos elos culturais entre os africanos escravizados no Brasil.
resposta da questão nº 1
a)
O candidato deve fazer referência ao fato de que os africanos vendidos como escravos no Brasil vinham de
diferentes partes do continente africano e por isso, eram de diferentes etnias. Assim sendo, eles não
apresentavam uma identidade cultural comum, apresentando mesmo conflitos interétnicos nas suas regiões
de origem. Não existia, portanto, para aqueles homens, uma noção de África que os fizesse sentir-se
semelhantes. Foi o seu encontro na situação de escravidão no Brasil que permitiu a esses indivíduos
reconhecerem as suas semelhanças frente à população branca e livre.
b)
O candidato pode se referir a grupos de capoeira e a formação de irmandades de negros e mulatos. Ou a
reunião dos escravos de ganho em “cantos”, que geravam uma identificação por ofícios ou por origem
regional
Questão nº 2
“Num país pequeno e despovoado como o meu, a militarização da sociedade não corresponde a nenhum projeto expansionista;
não serve também para a defesa das fronteiras, por ninguém ameaçadas. Trata-se de criar uma economia de guerra
em tempo de paz? Mas as armas vêm de fora e os inimigos estão dentro. Quem são os inimigos? Quantos sobraram?
No Uruguai existem de quatro a cinco mil presos políticos. Não é pouco. No começo, foram os guerrilheiros. Depois, os
militantes dos partidos de esquerda. Depois, os sindicalistas. Depois, os intelectuais. Depois, políticos tradicionais. Depois,
qualquer um. A máquina não para, exige combustível, enlouquece, devora o inventor: os partidos de direita outorgaram poderes
especiais e recursos extraordinários às forças armadas para livrar-se dos Tupamaros e em pouco tempo os militares
ficaram com o poder e liquidaram os partidos”.
GALEANO, Eduardo. “Negócios livres, gente presa?” Vozes crônicas. “Che” e outras histórias. São Paulo: Global/Versus, 1978.
A partir da leitura do texto acima e de seus conhecimentos sobre as ditaduras militares instauradas na América Latina nas
décadas de 1960 e 1970, faça o que se pede.
a) Explique os princípios da chamada Doutrina de Segurança Nacional, elaborada em diversos regimes ditatoriais militares
na região, nessa época.
b) Indique duas características comuns a essas ditaduras militares.
resposta da questão nº 2
a)
Centros de inteligência militar disseminados nessa época, em diferentes países, passaram a definir os
contornos da chamada Doutrina de Segurança Nacional, voltada ao combate de um inimigo interno,
propagador de “ideias subversivas” e, portanto, identificado como nocivo aos interesses da “nação”. Uma
das principais premissas da DSN é a noção de unidade política, pois, segundo seus princípios, o cidadão
não se realiza enquanto indivíduo ou em função de uma identidade de classe. É a consciência de
pertencimento a uma comunidade nacional coesa que potencializa o ser humano e viabiliza a satisfação das
suas demandas. Nesse sentido, qualquer entendimento que aponte a existência de antagonismos sociais
ou questionamentos é identificado como nocivo aos interesses da “nação”, portanto, deve ser combatido
como tal. É por isso que o elemento desestabilizador, contrário à unidade nacional da DSN; é considerado
“subversivo”, inimigo e, na linguagem da doutrina, como o estranho que não pertence e não tem direito de
pertencer à nação. A Doutrina justifica, assim, a ação do Estado no combate ao “inimigo interno”.
b)
Apesar das diferenças, algumas características foram comuns a todos os regimes militares desse período: a
suspensão total ou parcial de atividades legislativas, a falência dos regimes e partidos políticos tradicionais,
a militarização da vida política e social e a prática das prisões e da tortura; a emergência das ditaduras
militares está relacionada ao contexto da Guerra Fria e à ameaça da expansão internacional do comunismo,
especialmente após o êxito da Revolução Cubana em 1959 e seu posterior alinhamento ao Bloco Socialista;
os golpes militares foram apoiados por vários setores sociais como atestam, por exemplo, os boicotes que
industriais e comerciantes realizaram no Chile para desgastar a presidência de Salvador Allende e a
conhecida “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, contra o governo de João Goulart; os exércitos
da Bolívia, Argentina, Chile, Uruguai, Brasil, Paraguai e México estabeleceram um pacto para coordenar
operações repressivas, com o objetivo de combater a propagação do comunismo em toda a América Latina,
conhecido como Operação Condor.
Questão nº 3
O Fascismo foi uma experiência política central para o século XX. Sua ascensão, como regime, inicia-se na Itália após a
Primeira Grande Guerra Mundial, com a “marcha sobre Roma“ de 1922, na qual os fascistas italianos passaram a controlar
as principais instâncias de poder no país. Considerando essa afirmação, faça o que se pede.
a) Caracterize a conjuntura política e econômica europeia que permitiu a ascensão do fascismo entre as duas guerras.
b) Cite dois elementos que caracterizam o fascismo.
resposta da questão nº 3
a)
Com o fim da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), a Europa passou por momentos de oscilação, mas
em sua maioria os países envolvidos na guerra sofreram com o desgaste econômico decorrente do conflito.
Podemos dizer; então; que, com poucos momentos de estabilidade, o cenário europeu foi de crise
econômica, culminando com o impacto sobre o continente da quebra da Bolsa de Nova York; além disso, o
candidato pode ressaltar o progressivo enfraquecimento do poder colonial europeu sobre outros
continentes; o acirramento dos nacionalismos e a crescente tensão ideológica entre partidos de direita e de
esquerda. Tais argumentos podem ser citados pelo candidato como parte da crise geral dos valores liberais
que diversos países adotavam, esse foi um momento de crítica ao modelo político democrático e
parlamentar em favor de um Estado centralizador, intervencionista e autoritário.
b)
O candidato poderia citar como características do fascismo os seguintes aspectos:
a) o fascismo foi um movimento político de massas com adesão de diversos grupos sociais
(trabalhadores, setores médios, aristocratas, banqueiros, empresários etc);
b) ideologicamente apresentou um viés antiliberal, antidemocrático, anti-marxista;
c) culturalmente procurou defender uma “política regeneradora” e criadora de um “novo homem”;
d) esteticamente produziu um estilo que mesclou elementos de um passado mitológico idealizado (a
Roma antiga ou o passado germânico ariano) com aspectos da modernidade industrial;
e) politicamente expressou um concepção que pode ser denominada de totalitária entendida como
uma proposta que pretendeu realizar a integração do indivíduo com a massas;
f) constituiu um Estado de partido único com forte aparato policial;
g) estabeleceu uma organização corporativa da economia;
h) criou uma mitologia política voltada para a figura do líder e ancorada numa máquina de propaganda;
i) realizou uma política externa expansionista e imperialista inspirada no mito de recuperação de
poder nacional glorioso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário