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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Brasil e o Haiti

Pio Penna Filho*

O terremoto que atingiu o Haiti tornou a situação do país ainda mais grave do que já era. Marcado por um processo histórico conturbado, no qual prevaleceram figuras ditatoriais e regimes de exceção, os haitianos estão agora sofrendo os efeitos de uma catástrofe natural com poucos precedentes históricos.
O Haiti é o país mais pobre das Américas e o único considerado como estado falido, ou seja, aquele em que seu governo não consegue controlar o seu próprio território exercendo sobre ele sua autoridade, incluindo aí o monopólio do uso legítimo da violência e o provimento de serviços públicos, além de outros fatores.
Em sua história mais recente, a crise se agravou no início do segundo mandato do presidente Jean Bertrand Aristide, um padre que chegou ao poder pela primeira vez no início da década de 1990 prometendo executar uma verdadeira revolução social no país, mas que saiu sob fortes suspeitas de corrupção, fraude eleitoral e conexões com o narcotráfico internacional. Registre-se, todavia, que essa é a versão “oficial” da história. O padre, por sua vez, alega que foi deposto por um movimento organizado de fora, sob os auspícios dos Estados Unidos. Hoje, vive exilado na África do Sul.
O Brasil entra na história em 2004, quando o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas resolveu criar a Minustah, ou Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, e convidou o governo brasileiro para assumir o comando da nova missão que estava sendo criada.
O objetivo principal da Minustah era estabilizar a situação política e social e evitar que o Haiti se desintegrasse como país, como havia ocorrido, na prática, com a Somália. É claro que há um interesse direto dos Estados Unidos na questão, uma vez que a proximidade geográfica com o território norte-americano proporciona a milhares de haitianos uma possibilidade concreta de migração e isso estava, de fato, ocorrendo. Não fosse isso, é difícil acreditar que os Estados Unidos iriam se preocupar com a sorte dos haitianos.
Em 2004, o governo brasileiro identificou na atuação frente a Minustah uma possibilidade de projetar internacionalmente o país. Como um dos objetivos da política externa brasileira é conseguir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, nada melhor do que uma demonstração de sua capacidade de atuação internacional numa situação de conflito e reconstrução de uma nação.
Desde então o Brasil tem investido bastante na missão de paz no Haiti. Estima-se que até o primeiro semestre de 2009 o tesouro brasileiro gastou quase R$577 milhões, sendo que aproximadamente 40% desse valor retornou a título de reembolso por parte das Nações Unidas.
Agora a situação mudou dramaticamente. Não se trata mais de operar num território com um governo desprovido de condições institucionais e de governabilidade. Se trata de atuar num território desprovido de quase tudo e no qual de uma hora para outra as já enormes demandas sociais se multiplicaram de forma assustadora. A missão da comunidade internacional deve, também, mudar. Caso contrário, o Brasil, que já se via numa situação delicada no Haiti, irá se confrontar com uma situação sem solução, uma vez que sozinho, ou associado a outros poucos países, não tem condições de fazer frente a nova realidade.

* Professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Haiti de Caetano Veloso, uma abordagem sociológica sobre a discriminação racial e social no Brasil contemporâneo
Composição: Caetano Veloso e Gilberto Gil



Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
diga não ao racismo.





A música estabelece uma avaliação da noção de justiça em nosso país. Apesar em tese, da universalização dos direitos no Brasil, os excluídos do mercado - na música, pretos e pobres - não desfrutam dos direitos da cidadania. A letra da canção acima nos dá a possibilidade de analisar aspectos relacionados com a discriminação sóciorracial no país.


Crianças haitianas.




Charge que possibilita um intexto com a letra da canção Haiti.

É possível se estabelecer também uma abordagem sociológica nessa canção, a partir da discussão do fato de ficarmos perplexos com o que é de fora e aceitarmos passivamente as nossas mazelas locais, talvéz por isso os compositores optaram por abordar um Haiti que é aqui, ou seja, utilizou um lugar distante para parodiar uma realidade de ambos os países.